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Blog do Dunossauro

Lembranças preciosas

Há alguns dias, estava conversando com as pessoas em uma live na Twitch do tempo que fui voluntário em um projeto que ensinava informática básica para a terceira idade e o quanto isso me marcou de diversas formas, o que pode ser assunto para outro blog post. Mas, quando saí da live, isso me despertou uma lembrança da minha avó paterna.

Morei uma temporada da vida com meus avós, onde adquiri diversos hábitos que conservo até hoje. Às vezes me pego pensando nessas coisas e me emociono, outras vezes caio em gargalhadas.

Minha avó não teve muita oportunidade de estudar, era uma católica devota, daquelas que ia à capela rezar o terço todos os fins de tarde. Era dócil e rabugenta, acredito que como todas as avós.

Como estava no contexto de falar sobre educação durante a live. Me lembrei de várias tardes em que sentava ao lado da minha vó, na mesa da cozinha, tomando um iogurte caseiro que ela fazia, sem açúcar, pois era diabética, mas nós claramente colocávamos açúcar refinado na hora de comer, sem que ninguém nos visse. Ou então outra coisa maluca que comíamos, alface com açúcar.

Durante essas tardes acontecia uma coisa que levei anos para entender. Minha vó estava fazendo lição de casa. Ela estava tendo o básico de uma educação formal em um supletivo. Tinha um caderno de caligrafia exemplar. Ela tinha tanto orgulho desse caderno, guardava-o em uma gaveta separada do móvel, onde não tinham outros cadernos, mas sim alguns cacarecos acumulados durante a vida. Fantasio hoje, depois de tantos anos, que ali deveriam estar algumas das coisas mais preciosas de sua vida. Lembro de um álbum de fotografias, alguns monóculos antigos também de fotos, algumas outras coisas pequenas das quais não consigo me lembrar agora.

Uma vez na semana, ela se reunia com outras senhoras da igreja para bordar e pintar panos de prato. Que vendiam no bazar da igreja. Lembro terem sempre frutas pintadas e alguma mensagem, às vezes algo genérico, às vezes alguma passagem que consideravam belas, nas escrituras sagradas. Uma utilidade prática daquelas longas horas treinando caligrafia.

Lembro de ir buscar minha avó na escola com meu vô em um Chevette prata, que era o xodó dele. Comíamos biscoito de polvilho enquanto esperávamos ela sair, sempre ao som de um bom pagode. Silêncio absoluto ouvindo as aventuras narradas por Tonico e Tinoco. Quando minha avó era avistada pelo meu avô, começavam os resmungos, uma cena digna de coragem, o cão covarde. Meu avô era o próprio Eustacio, enquanto minha avó era uma Muriel por completo. Íamos para casa ao som de uma viola chorando aqui, um resmungo ali.



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