Não é sobre o merch, nunca foi… É sobre a música.
Nesses tempos de hiatos da live de python e sem preocupações latentes sobre conseguir fechar o mês no verde andou me “sobrando” tempo pra fazer a coisa que mais gosto de fazer no mundo, ouvir música. Um ato meio sagrado por aqui.
Toda vez que falo disso, lembro da Gabi com uma expressão confusa me dizendo:
Tá ouvindo música? E fazendo mais o que?
E eu literalmente só sentado ouvindo música, foco absoluto nisso.
Peguei para ouvir a maior banda de todos os tempos1 Fugazi! Comecei com o 13 Songs, meu objetivo era ouvir discografia completa. Mas o Repeater me pegou, como ele sempre faz… Não por ser um disco incrível, mas porque ele é extremamente pesado e força a gente a colocar no repeat2.
Sempre tenho uma dificuldade imensa pra passar do meio do disco, mais especificamente da faixa 4: Merchandise. Não que Turnover e Repeater não me matem um pouco a cada verso, mas Merchandise tem coisas que são muito caras pra mim. Que refletem as convicções fortes que carrego.
Merchandise, it keeps us in line
Common sense says it’s by design
What could a businessman ever want more
Than to have us sucking in his store?
Embora exista uma crítica bastante sistêmica aqui, bastante profunda, ela é uma crítica à própria cena punk/hardcore underground, da época, de forma geral.
Quando eu penso sobre isso, reflito sobre a minha própria ótica de trabalho. Não como “assalariado”, mas como o “““host””” da live de python. O Fugazi sempre teve essa pegada de ser contra o merch pelo fato de que “nos reúne aqui no show” é a música e não o merch3. Não precisamos das mesmas roupas, ser vitrine de banda ambulante quando andamos por aí.
E isso vai… Obviamente, os pensamentos convergem com a condição do que eu faço. Sempre me recusei, embora algumas vezes isso tivesse pesado na minha mente, a ter qualquer outro “apêndice” de nada irrelevante pendurado nesse projeto. Nos juntamos pra falar de código, pra passar a autonomia do entendimento técnico disso pra frente. Sem hierarquia, sendo corrigido ao vivo, um espaço de troca, do “fazendo eu mesmo” o que dava. Não é perfeito, não foi feito pra ser. Mas é o momento “memorável” que vamos passar juntos e que vai ser registrado naquela live.
E durante esse hiato no projeto, talvez seja causado exatamente por pontos que tocam nessa “integridade idealizada” que eu carrego dele:
- A troca: a música pela música no momento em que ela toca, em que ela acontece
- O tosco, amador4, DIY: fazer porque você tem que fazer aquele que acredita que deve ser feito
E essa essência, essa coisa, “ressoa”5 toda vez que o “Merchandize” me bate. É uma somatória de apêndices irrelevantes de plataformas que ganham espaço na minha pequena caixola. São números, são métricas, são likes, são assuntos que não me interesso.
E toda vez que me deixo ganhar por esses pensamentos, DFW ecoa6: “Isso é água, isso é água, isso é água”. No final… o Repeter acaba e a discografia me trava em In on the kill taker - Returning to screw:
Fine disservice
Deceptive, too
Check for the sender
Sender was you

Quadrinhos em três tirinhas. Na primeira, um rapaz livre andando de bicicleta com um bastão na mão 'me', na segunda ele está colocando o bastão na roda da frente 'also me'. Na terceira, ele está no chão, agarrando o joelho machucado 'definetly me'
A discografia segue, chegamos a Instrument Soundtrack - I’m so tired:
I’m so tired, sheep are counting me
No more struggle, no more energy
No more patient, you can write that down
It’s all too crazy, I’m not sticking ‘round
É um cansaço mental daquilo que se joga em si mesmo, quase newtoniano, que o Merchandise empurra, mas tenho que fazer a força dobrada para repelir de volta.
É isso, não tem catarse. “É preciso imaginar Sísifo feliz”, já dizia Camus. Ou na melhor versão anarquista cantada por Chuva Negra em ‘Estamos aqui’:
Lave o rosto, abra os olhos, flexione os braços,
Ontem foi só mais um dia dos que ainda estão por vir,
Então qual é a grande surpresa?
Você sabe bem que a chuva é negra, traiçoeira e ela volta sempre.
Não notou que estamos sozinhos aqui?
Melhor que ter alguém dizendo aonde ir.
E se você discorda disso, só está errado e está tudo bem :) ↩︎
Não… eu não queria fazer um trocadilho… só aconteceu. hahaha ↩︎
E embora eu concorde com a crítica feita pela Fugazi, se você for a um show independente, compre merch, na grande maioria esmagadora dos casos isso faz com que a banda continue rodando. ↩︎
“like a Fermat”, amador, mas no melhor sentido da coisa. ↩︎
Como um Qorpo-Santo de Saias (isso é Ludovic, vai ouvir, vai fazer sentido) ↩︎
DFW = David Foster Wallace. O texto é do discurso de paraninfo dele. ↩︎
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