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Blog do Dunossauro

Talvez, só talvez, eu não me odeie mais tanto

Esse texto é um desabafo bastante pessoal, fala sobre assuntos muito sensíveis como violência sexual, saúde mental e suicídio. Sei que ele pode ser um gatilho para quem estiver lendo. Talvez nesse momento você não queira continuar e está tudo bem.

É engraçado pensar, às vezes é. A vida vai acontecendo, o tempo vai passando… Os cortes vão ficando para trás, criando um delta cada vez maior dos eventos traumáticos. E isso não vem acompanhado de um impulso de otimismo, menos ainda de uma fé no futuro. É uma coisa hautonlógica1, como aquele apud em dentes amarelos2 de aprender a ser quem se é. Uma coisa talvez nietzschiana “Ecce homo”3 do “Bom… é o que tem pra hoje, sigamos”.

E é incrível a quantidade de referências jogadas ao vento toda vez que tento falar sobre essas coisas. Afinal, elas me ajudam a racionalizar o trauma. É aquela vozinha do David Foster Wallace dizendo: “Isso é água, isso é água” em loop4. Claro, só sentar e chorar, muitas vezes já seria o suficiente, no lugar de vomitar esse monte de palavras com notas de rodapé para, pelo menos em algum lugar, alguém entenda toda essa merda desconexa na minha cabeça. Mas… se não botar esse EPI, acabo furando meus próprios olhos.

Em alguns textos atrás (acho que antes do fugazzi) alguém me mandou por email “acho que entenderia mais se soubesse de onde as referências vem”. Então, vou tentar “catalogar” o caos.

Não queria que isso virasse uma “breve entrevista com um homem hediondo”5, mas talvez dizer que a pessoa que me “fodeu”6 na infância7 não me assusta mais tanto. Claro, essa porra ainda vive em mim, vai me assombrar pra sempre e talvez o trauma tenha me feito tomar decisões tão ruins durante a vida que são irreparáveis. Não é como se o demoníaco Pacheco8 estivesse correndo atrás de mim as 24hs do dia, embora tenha dias em que, inegavelmente, sim!

É como se sobreviver fosse ser K. no Castelo9. Os dias passam, as coisas acontecem, a gente ama, conhece pessoas, tudo normal. Mas alguma coisa não se encaixa, tem uma parte do “ser quem se é” que não pode ser dita, porque sinceridade é um taboo. E mesmo se falasse, ninguém realmente se importa. Os fantasmas alheios também existem… “Isso é água”. Escrever sobre isso é como estar na “coitadolândia”: “Nossa que sofrido esse garoto”. Ao mesmo tempo que a dualidade vem do “se eu não falar sobre isso pra mim mesmo, ninguém o fará”. Mas o velho safado raramente está errado nesse ponto “arranje uma grande máquina de escrever (…) e bata na máquina, bata forte”10.

Por muitos anos, essa coisa me fez ter duas percepções sobre as pessoas, e isso era como pêndulo, vendo agora em retrospecto. “Se eu não valia nada, então qualquer pessoa podia fazer o que quissse comigo”, o que me meteu em lugares sombrios por tempo muito maior do que o necessário. Intercalando com “A vida não vale nada, então foda-se como trato as pessoas”, o que me fez machucar gente que não merecia e permitir ser machucado sem entender o que de fato aquilo era. E sempre que me dava conta do “to fazendo uma coisa muito errada” a autoflagelação vencia. Nesses momentos se abriam fendas, distorcendo o tempo, como se pudesse ver as atrocidades na minha mente em 4k.

Às vezes, o que me vinha era só Wherter11 e a súbita vontade de não estar mais nesse plano. Um negativismo magnético, como se Alexander Search12 tivesse parado de procurar. Um Drummond encarando de frente um “Silencioso cubo de treva”13. Sem perceber, fui embora. Não tirando a minha própria vida. Mas saindo daquele lugar fisicamente. Isso não foi proposital, foi uma situação. Mas me mudei pra longe, não que os fantasmas tenham ficado pra trás, mas pude ver que existia outra vida, outras pessoas, outro mundo.

Entenda que isso não quer dizer que, quando cheguei lá, não era um completo imbecil. Ainda era “estranho para mim mesmo”, mas todas as pessoas eram estranhas para mim também. O que torna tudo igual, porque a gente nunca conhece ninguém profundamente, mas diferente, pois nenhum conceito sobre ninguém me era dado. Ah… mas como eu chorei… sozinho, envergonhado, escondido. Mas, no momento em que decidi deixar as outras pessoas entrarem, elas simplesmente entraram. De forma honesta, branda, sem querer minha alma em troca de nada. Embora isso não seja nenhuma forma de cura, me deu um óculos novo da realidade. Nem todo mundo é a minha família.

Esses óculos foram ganhando funcionalidades com o passar do tempo. Filtro de luz azul, lentes fotocromáticas, proteção UV. É quase um “They live”14. Eles me davam dimensão de onde eu podia pisar. Embora, eles não tenham me dado a habilidade de olhar pra mim mesmo. Isso me colocava perto de coisas legais, de pessoas incríveis, mas que continuei machucando. Porque, embora elas fossem boas, eu não era. E essa sensação, não trouxe aquele medo paralisante de antes, nem mesmo pensamentos autodestrutivos. Me trouxe duas coisas que eu não havia experimentado ainda, não de forma tão explícita. Ódio e nojo. Ódio do meu futuro destruído, sem tijolos amarelos15 para caminhar, ódio da pessoa em que tinha me tornado, ódio de quem fez isso comigo. Ao mesmo tempo que enojava pensar em mim mesmo, eu era “sujo”. Reproduzia os padrões pendulares.

E não sejamos hipócritas… Esse padrão pendular se repete até hoje. Menos, muito menos do que no passado. O tempo não curou merda nenhuma. Ele só me deu mecanismos pra me abrir mais e me odiar menos. É… é sufocante dizer isso, mas talvez eu não me odeie mais tanto.


  1. No sentido Mark Fisher da coisa. ↩︎

  2. Faixa do Dead fish em Labirinto da memória. ↩︎

  3. Ecce homo é um livro do Nietzsche onde ele descreve “Amor Fati” e também a apresentação de Pôncio Pilatos ao apresentar Jesus Cristo. ↩︎

  4. Discurso de paraninfo de 2005 no Kenyon College. ↩︎

  5. Trocadilho com livro do DFW ↩︎

  6. Literal e figurado ↩︎

  7. Já falei sobre isso aqui ↩︎

  8. Conto do Jan Potocki sobre um homem que acorda num lugar estranho, com 3 mortos que são fantamas que o seguem pela cidade. ↩︎

  9. Livro de Franz Kafka (longo) onde o protagonista nunca chega onde foi designado para estar, embora esteja exatamente onde deveria estar ↩︎

  10. Poema de Charles Bukowski “Como ser um grande escritor” ↩︎

  11. Personagem de “Os sofrimentos do jovem Wherter” de Goethe ↩︎

  12. Heterônimo jovem de Fernando Pessoa que escrevia em inglês ↩︎

  13. Poema de O sentimento do mundo chamado “Turno a janela do apartamento” ↩︎

  14. Filme de John Carpenter ↩︎

  15. No mágico de OZ, Dorothy encontra o caminho usando a estrada de tijolos amarelos ↩︎



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